Santo Antônio do Bugre


Sem esperanças, roupas úmidas, essa uma entre a Bocaina e o Cantagalo talvez fosse mais um esforço em vão: 8 km serra acima, estrada ruim, só fusca subindo, marcas de corrente. “Uma a menos; mais um final de semana perdido; só coisa ruim ou cara demais; mas essa uma – ‘essa uma’,” como aprendi a falar depois – tem outra toponímia: “Bugre”; “Bu-gre”, vou escandindo a palavra seca de duas sílabas até perder o sentido, sentido de que gosto, mesmo alertado por Vera, para seu peso pejorativo: “indivíduo inculto, violento, primário, rude”

Vista da fazenda na época de sua compra, com o plantio do primeiro talhão de oliveiras (à direita) já iniciado (janeiro de 2010)
Vista da fazenda na época de sua compra, com o plantio do primeiro talhão de oliveiras (à direita) já iniciado (janeiro de 2010). A paineira mais antiga já estava florida. Foto: Antônio G. Batista.

“Essa fica no Bugre, entre a Bocaina e o Cantagalo,” o corretor disse para os dois que vestiam a roupa suja da procura do dia anterior: não sabiam o quanto maio pode ser chuvoso na Mantiqueira. E já fazia um mês inteiro que rodavam em busca dessa terra prometida para plantar oliveiras: Sapucaí-Mirim (em Minas); São Bento do Sapucaí (em São Paulo); Gonçalves e Paraisópolis (em Minas de novo); Campos do Jordão – “ah, não, Campos do Jordão não! Não combina! -; Brazópolis e Piranguçu (em Minas outra vez). A cada terreno ou propriedade, neblina, garoa, chuva, lama e insegurança: “vai dar para ir ver essa fazendinha hoje? vai dar para passar na estrada?”

Sem esperanças, roupas úmidas, essa uma entre a Bocaina e o Cantagalo talvez fosse mais um esforço em vão: 8 km serra acima, estrada ruim, só fusca subindo, marcas de corrente. “Uma a menos; mais um final de semana perdido; só coisa ruim ou cara demais; mas essa uma – ‘essa uma’,” como aprendi a falar depois – tem outra toponímia: “Bugre”; “Bu-gre”, vou escandindo a palavra seca de duas sílabas até perder o sentido, sentido de que gosto, mesmo alertado por Vera, para seu peso pejorativo: “indivíduo inculto, violento, primário, rude”, como está no Houaiss. Gosto ainda mais da lenda que os dois corretores me contam: que lá teria morado um último de uma tribo; que teria tido por abrigo uma pedra, caverna ou salão cravado na rocha – hoje semi-destruída pela exploração de granito. O último; o sobrevivente; o que não deixou semente. Mas nem a mais furiosa fantasia podia deter o cansaço e a melancolia que aos poucos tomou conta de nós. A garoa continuava; às vezes apertava; o carro patinava desgovernado para o desespero de um obsessivo como eu; minhas pernas estavam ficando dormentes no Passat velho; os vidros estavam embaçados e do pouco que via, pouca coisa animava.

Mas ali: de repente, depois de sair de São Paulo e entrar em Minas, volto a São Paulo e, discretos, um marco antigo de pedra, com duas faces faz uma nova divisa: aqui termina Minas Gerais; aqui começa São Paulo. Paramos. O marco está coberto de musgos e líquens – quase não dá para se ler São Paulo; é preciso passar o dedo pelas letras preenchidas por pó e poeira. E me volto para Minas: não tinha percebido que havíamos subido tanto. Nem que o tempo agora tinha ficado “brusco”; que as nuvens tinham subido; que outras tinham ficado no fundo dos muitos vales; que ainda poucos restos de nuvens como cachecóis envolviam o que se via abaixo: por ser mineiro exilado, quero dizer que era Minas num horizonte tão amplo que côncavo, demonstração do redondo da terra encimada por montanhas diferentes umas das outras – corcundas de camelo suaves, picos pontudos ao longe, chapéus de bruxa, lançantes brandos, crateras inusitadas, vãos, montões, vãos e ribanceiras e vales sem ritmo – um tapete com que uma criança brinca para fazer montanhas. Já caminhando para o Oeste, o sol atravessa as nuvens e o vento forte. Minha prima Júlia iria reencontrar uma de suas piores fantasias de infância: a reprodução da imagem do olho de Deus de nossos livros de catecismo, onisciente e onipresente.

Os dois com a cara de quem encontra o paraíso: Vera Masagão Ribeiro e Antônio G. Batista
Os dois com a cara de quem encontra o paraíso: Vera Masagão Ribeiro e Antônio G. Batista. Foto: Lucas Ribeiro Arruda

O ânimo se desfez mais à frente: depois de passado o povoado da Bocaina, chegamos à porteira da fazenda. A estrada não existe mais: só carro de boi. Vamos caminhando na chuva fina que havia voltado e paramos no primeiro ponto onde é possível ver algumas das divisas da fazenda. Quando encosto numa árvore, o grande susto: um enorme jequitibá, tão antigo que suas raízes, junto ao esterco das vacas deitadas por perto, são grandes bancos. Olho para Vera, Vera olha para mim. O olhar basta para saber que estamos gostando. Mais: a grande corcova onde fica o jequitibá dá para um vale sem as paisagens dramáticas que a Mantiqueira tanto tem: só um vale, com pequenas plantações e pastos e matas. E um córrego, cujo nome depois descobrimos no IBGE: córrego do Bugre. Se já estávamos a uns 1.200m, subimos mais até o ponto de confluência entre dois pequenos cursos d’água: as duas nascentes do córrego brotam na própria fazenda. De lá, a vista inteira do vale e das partes lançantes suaves das montanhas que o formam: as araucárias fazendo cercas; o barulho da cachoeira que nasce da confluência dos dois riozinhos, bromélias, cipós, lianas, outro jequitibá, guatambus, ipês, jacarandás, sucupiras, um belo pasto bem na face Norte – ou na “batedeira”, aprenderíamos logo depois – onde plantar as oliveiras; e nascentes e mais nascentes, e vargens e varginhas com juncos e taboas e açucenas com seu cheiro doce. Olhando para a esquerda, a Pedra do Bugre – um castelo abandonado e em ruínas (depois olhei no Houaiss a etimologia: de “Bougre” (fr,), originalmente do latim “Bulgarus”, quer dizer “búlgaro; herético; sodomita’, porque os búlgaros, como membros da Igreja greco-ortodoxa, foram considerados heréticos”*, ou, o que importa para mim, não pertencentes a uma ortodoxia – seja ela qual for; não partidários de uma “doxa”, de um pensamento que não se apresenta como “pensamento”, mas como “dado natural”, como “da ordem da evidência das coisas”. Depois, “Bugre”: membro de uma tribo do Sul do Brasil e do Uruguai e, enfim, todo o resto que veio com o nome – gente arredia, desconfiada, rude, primária, incivilizada, sem as violências suaves e insuportáveis da vida que levávamos.

Basta mais um olhar entre mim e ela para saber que nosso desejo era por aquela fazenda. Não me lembro como comemoramos, mas foi no hotel, longe dos corretores. A comemoração, de qualquer modo, seria curta, pois o o sofrimento da compra ainda iria ser longo e penoso. A propriedade estava a venda há anos, mas a compra nunca se fechava, apesar do interesse dos compradores. O proprietário era linha dura. Acabei com a impressão de que eram linha dura os compradores: seu Zé, o proprietário, gostava de fazer negócio; mineiro de Gonçalves, tirava prazer na negociação; estudava o comprador sem que notasse; quase tudo fechado, punha um senão; depois outro; parecia querer gostar do comprador para fazer a venda, mas quase como um gato gosta do rato com que brinca antes do final; e punha com jeito mais coisa no negócio: e a picadeira de capim? e o cavalo? a égua? e o carro de boi? e os bois do carro, Marcante e Dourado? e as vacas? os bois de corte? Nossa sorte foi ter junto de nós um negociador do mesmo tipo, Laércio, um de nossos corretores, mineiro também, de Sapucaí-Mirim. A certa altura os dois começaram a dançar uma dança a que somente assistimos boquiabertos. Baixavam a voz de repente; de repente se animavam quase gritando e pulando da cadeira – um jogo de truco jogado por dois artistas atentos um ou outro mas também à plateia, ao espetáculo, e sobretudo às mulheres de rosto enigmático que decidiriam o jogo: a minha e a de seu Zé.

Seu Zé, no dia 13 de junho, se sentiu à vontade para dar seu sim. Não me lembro tampouco como comemoramos. Lembro apenas de, num caderno perdido, fazermos os primeiros esboços de nossa casa. Como o “sim” foi dado no dia de Santo Antônio, a fazenda ganhou seu nome, mas manteve o Bugre: Santo Antônio do Bugre. Tinha antes o belo nome de fazenda das Paineiras. Construímos nossa casa – esperamos, eu pelo menos, que já me mudei, ao longo da vida, mais do que o necessário, que seja a última – entre duas antigas paineiras. São elas que nos mostram as estações: seca e sem folhas no outono; com folhas e a melhor das sombras na primavera; com flores no verão, com frutos e painas voando pelo jardim no inverno. Suas sementes, transformadas em mudas, estão se espalhando pela fazenda agora. Assim como os guatambus e as sucupiras – que na Mantiqueira se chamam Chico Pires numa adorável corruptela. E os jequitibás – aqueles que não vou ver crescer. Cuja sombra nunca vou sentir. Se para não seguir o conselho de Manuel Bandeira e ter desejos quando não podemos tê-los, gostaria que se lembrassem de mim junto às raízes do pé de jequitibá. De lá, se vê boa parte do olival, as partes que estamos reflorestando, as vargens grandes e a varginha, o lagar – onde se extrai o azeite – a cocheira e as duas estradas da fazenda. É sob essa árvore que gostaria de dormir e – como é tão comum por aqui – fizessem lá um lugar de memória: cruz, capelinha para colocar santo quebrado, marca de que ali viveu um casal que amou como profundamente aquele lugar e aquele trabalho.

Antiga cocheira da fazenda
Antiga cocheira da fazenda. Foi construída pelo Seu Zé Ribeiro, antigo proprietário. Hoje está reformada, mas mantém a mesma forte estrutura. Foto: Antônio G. Batista.

Fomos aprendendo o jeito de andar daqui, jeito que só sabe quem sobe muito morro; o jeito de falar, adotando o R retroflexo ou caipira – que é tão adequado a certas palavras, como “vaRgem” e “vaRginha”, “poRtão”, “aRbequina” e “peRdido”. E sem perceber recebendo um novo vocabulário e todo um novo mundo que com ele vem: “Esse um é bom?” “Esse camarada que a gente contratou é bom demais, é perdido!” “É melhor por essas duas mudas pareadas”  “Pode desencochar esse parafuso; se encochar mais vai espanar o parafuso” “A madeira não ficou guardada direito e encouchou”. “Você sabe que Fulana não é mulher direita, é mulher voluntária”. A mesma coisa com os modos de comer: o pepino caipira, a quirerinha, os virados, a leitoa das festas de Igreja (uma banda? um quarto? traseiro ou dianteiro?)

Aos poucos com a ajuda do Mário Marcolino – que já estava há anos aqui trabalhando no Bugre -, fomos plantando as oliveiras. Se – gente da cidade como nós – sabia quase nada do plantio de coisas da terra mesma, vai imaginar do cultivo e da extração de oliveiras – essas plantas estrangeiras. Começamos com 1.000 pés em dezembro de 2009 e a cada dezembro fomos plantando mais um talhão. Hoje são cerca de 9.000 pés, com idades que vão dos sete anos aos cinco meses. Fizemos muitos erros: de adubação, poda, espaçamento. Ainda é pouco o tempo para avaliar a produtividade, já que as oliveiras se tornam adultas aos 10 anos. Mas nunca vi ocupação ou lida que lidasse tanto com o risco: pode chover fora de hora; e na Mantiqueira há muita chuva de pedra; há invernos que não vêm e secas que não acabam. Há poucas pesquisas ainda que auxiliem a diminuir esses riscos. Tenho uma amiga, Sônia Madi, criada numa fazenda de café em Mirassol, no Oeste de São Paulo, que prometeu para si mesma nunca mais voltar para uma fazenda: ela não aguentava mais fazer novenas – para parar de chover e para chover; para esfriar e para fazer calor; para não ter geada nem chuva de granizo; para, se chovesse, que não fosse chuva forte, fosse fina e constante. Os santos, na cabeça de Sônia, deviam se perder com tantos e contraditórios pedidos, feitos pelos mesmos fiéis.

É uma das coisas que aprendemos logo a fazer aqui: deixar uma vela acesa para vários santos em casa. E, além do mais, na agricultura, ascender vela para tudo quanto é santo – experimentar um pouco disso nesse talhão; um pouco daquilo naquele outro; e pouco de mais disso nesse outro. E ter a paciência de aprender a cada safra, com humildade e um respeito enorme a essa coisa a que chamamos “natureza”: “inculta”, “não civilizada”, “selvagem”, “primária”, “rude” e às vezes “violenta” – como um bugre.

Mário mostra uma das primeiras mudas plantadas em dezembro de 2009. Já então apontava para um problema que iríamos enfrentar no cultivo das oliveiras: a presença de cochonilhas.
Mário mostra uma das primeiras mudas plantadas em dezembro de 2009. Já então apontava para um problema que iríamos enfrentar no cultivo das oliveiras: a presença de cochonilhas. Foto: Antônio G. Batista.

5 Comments Say something

    1. Oi, Solange, desculpe a demora. Só agora retomamos a construção do blog. Não entendi bem sua pergunta. Vc se refere a apoio de instituições públicas ou se nós envolvemos atividades turísticas paralelamente à produção de azeite? As duas respostas são afirmativas. No caso de órgãos públicos, estamos envolvidos em projetos da Prefeitura de São Bento do Sapucaí de desenvolvimento de turismo rural comunitário, que nos integra às comunidades rurais vizinhas. No segundo caso, o nosso lagar (local de extração de azeite, de degustação, nosso pequeno armazém, bem como visitas ao pomar fazer parte do roteiro turístico da cidade. Tomara que tenha ajudado. Senão, me escreva de novo. Há mais informações agora aqui no blog, bem como em nossa página no face (https://www.facebook.com/azeiteoliq/). Abr, Antônio

  1. Fiz questão de ler tudinho. o casal está de parabéns.
    Quanta história e sacrifícios.
    No proximo dia 9 estarei ficando hospedado nos chales da PEDRA DO BAU, do SR. Antonio de nome igual também. Ficarei até dia 12 eu minha filha de 20 anos minha sobrinha e seu noivo.Gostaria de saber se será possivel visitar a fazenda , degustar o famoso azeite e comprar lógico.
    Grande abraço LEANDRO

    1. Oi, Leandro, a gente fica feliz com que os textos do blog tenham sido lidos. Mas não são só uma história de sacrifícios: são uma história também de muita alegria e de diversão também. A gente ri também das bobagens que faz! Será um prazer recebê-los! Ligue para 35 98419 2752 e agende sua visite, especialmente se for à fazenda durante um dia de semana. A gente sabe que, quando se está de férias, ninguém quer saber de horários muito rígidos. Nós tampouco. Então, nos fins de semana, nem é preciso agendar. Apenas pegue o carro, se anime com um pouco de espírito de aventura e suba a serra! Abr, Antônio

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