São José do Coimbra

Coimbra transplantada


Antiga fazenda é pioneira no cultivo de oliveiras em São Bento do Sapucaí (SP) e expressa suas origens portuguesa e mineira.

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Algumas décadas antes da aquisição da Fazenda São José do Coimbra, a família Gonçalves faz um “convescote” na Mantiqueira (1924), em Paraisópolis. Foto: autor desconhecido.

 

Portugal na Serra do Coimbra

O nome do bairro rural já era Coimbra, quando o português José Maria Gonçalves, por uma dessas coincidências do destino, comprou as terras do viria ser a fazenda São José do Coimbra, em São Bento do Sapucaí (SP). Morador da vizinha (e mineira) Paraisópolis, onde era proprietário do conhecido Hotel Central, José Maria – ou o Zé do Hotel, como acabou por ser conhecido – subia (e descia) a serra abrindo estrada para passar temporadas na fazenda com a família, evitando rios cheios, barreiras e atoleiros. Só alguma saudade intensa para quase ter de escalar o grande maciço de granito, a mais de 1.600 metros de altitude, passar por florestas de araucárias intocadas e numa estreita faixa de terra plana margeada por “penhas e incultas brenhas” – como sabíamos recitar todas as crianças mineiras o verso de Alvarenga Peixoto – para ali plantar peras e pêssegos e passar verões chuvosos e cheios de bruma, e invernos de céus azul e frio intenso.

De pereiras e pessegueiros a oliveiras

Talvez essa saudade seja atávica e corra no sangue da família: sua neta, Cristina, uma das herdeiras da fazenda adquirida nos 1950, deixou Paraisópolis, mudou-se para São Paulo, onde se tornou psicóloga, depois professora da PUC, e para o Coimbra voltou para construir sua casa, construir seu pomar de pêssegos e, mais tarde, seu pomar de oliveiras, lembrando-se das azeitonas que costumava comprar na feira de Paraisópolis, em sua infância, plantadas em antigos pomares da região, dos quais até hoje busca algum traço, algum resto, depois que foram abandonados.

Começou, cedo, com pouco apoio e pesquisa, nos anos 2005, com mudas de grappolo, uma variedade de origem italiana, e de um cultivar até hoje desconhecido: agrônomo algum, especialista algum que passe no pomar descobriu até hoje que variedade é, apesar do azeite ótimo e pungente que dá – ganhou então o apelido de “bicudinha”.

Hoje, após ter descoberto as pesquisas da Epamig em Maria da Fé – um órgão do Estado de Minas para a pesquisa em pecuária e agricultura, ampliou seu pomar. Conta também com assessoria Agência Paulista de Tecnologia de Agronegócios (APTA) e do Instituto Agronômico de Campinas.

Uma vila mineiro-portuguesa

Capela de Nsa. Sra de Fátima, na Fazenda, em dia de festa da padroeira.
Capela de Nsa. Sra de Fátima, na Fazenda, em dia de festa da padroeira.

A fazenda, vista do alto, acabou – de saudade pulando de avô para neta – parecendo mesmo uma pequena vila portuguesa: no alto, chegando a uma floresta de araucárias, fica uma capela – de Nossa Senhora de Fátima, não poderia deixar de ser. O pomar de pereiras e pessegueiros está lá, com seus galhos espetados e secos no inverno, suas flores no início da primavera, junto à casa construída pelo avô. Muros de pedra seca margeiam a estrada. Outras casas e a grande cocheira antiga – com nas velhas fazendas – está bem à vista da casa do dono. Com alguma caminhada, se chega à casa de Cristina, passando pelo pomar de oliveiras, por entre “penhas e incultas brenhas” – mas que, ao contrário do poema de Alvarenga Peixoto, no exílio e distante de sua “Barbara Bela” –  acolhem e protegem: a gente e os animais do vento que vem de Minas; esquentam; fazem pequenas grutas de musgo e líquen; abrigam orquídeas e bromélias – melhor lugar para as oliveiras do novo mundo?

 

 

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