Capelinhas caipiras

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|Capela de Nossa Sra. das Graças|


Capela de fazenda, também devotada a Nossa Sra. das Graças. É a primeira pintada de vermelho que encontro na região da Mantiqueira. De fazenda, sua estrutura é feita para durar: alicerce de pedra, laje, torre sustentada no interior com colunas, altar de alvenaria. Ainda mais que substitui uma anterior – segunda a história contada pelos proprietários atuais e anteriores, um antigo dono passou o trator sobre a antiga, sem mesmo tirar os santos – incluindo um antigo santo de madeiro. A fazenda foi à bancarrota. Foi reconstruída pelo proprietário seguinte e agora é cláusula de contrato de venda: na capela ninguém mexe.

A capela replica a placa de entrada da fazenda: “propriedade de Nossa Sra. das Graças”. Graça alcançada numa região que ainda hoje tem as marcas da Revolução de 32. Fica próxima a Luminosa, antiga Candelária, até então parte de São Paulo até escorregar para o lado mineiro: é hoje um distrito de Brazópolis.

Como toda a região, o grande terreiro de tijolos testemunha a antiga vocação da fazenda: café, hoje substituído por gado e, sobretudo, banana.

Há muitas coisas interessantes na capela: ela mantém, mesmo que num espaço limitado, sob a torre, uma pequena varanda que serve de abrigo – o espaço da capela, mesmo maior que o usual, não deixa de ser pequeno – para os fiéis em dia de maior frequência; algo também menos comum são suas linhas que puxam misturam linhas neoclássicas nas barras pintadas de branco com a profusão de torres que saltam para céu – três ao todo, quando uma apenas é mais comum – e que lembram uma pequena brincadeira gótica.

É também interessante certa diferença de representar a capela. Desde os proprietários anteriores se encontra – pena, em péssimo estado de conservação – um oratório, de um tipo bastante comum na Mantiqueira – que reproduz a capela, mas como uma igreja de estilo gótico, também dedicado a Nossa Sra. da Graças, e que em nada é semelhante à original.

Oratório que "reproduz" a capelinha da fazenda. (Foto: Antônio G. Batista)
Oratório que “reproduz” a capelinha da fazenda. (Foto: Antônio G. Batista)

Copia e original são duas pérolas da arquitetura da Mantiqueira. Não consigo me decidir qual delas estava na mente do construtor – se o oratório, se a capela mesma; qual delas, no fim das contas, é a original que, no contato com a realidade, com os recursos humanos, financeiros, técnicos, terminou por se tornar a realidade possível.

Ambas estão na fazenda de um dos muitos irmãos que fazem parte de uma antiga família de Luminosa. Os Inhana, no caso, Paulinho. Apesar de novo, não usa celular, nem relógio, nem TV; prefere o cavalo ao carro, com sua grande capa de montar. Puxa o terço dos homens como poucos e gosta de pensar e pensar sobre as diferenças entre São Paulo – de quem ganhou o nome – e São Pedro. Ouvi um pouco da conversa sobre essas delicadezas e distinções teológicas escutando partes – quase escondido – de suas conversas com o Padre Pedro, de Santo Antônio do Pinhal, que visitava a fazenda conosco. Paulo Inhana e Padre Pedro devem ter achado que essas delicadezas não eram para gente de São Paulo. Devem ter-se esquecido que fui criado em Minas, do lado da Sacristia.

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