Festa de Santa Maria – 2016

Festa de Santa Maria no Cantagalo


A festa é o principal evento que une celebração religiosa e congraçamento dos moradores e ex-moradores do bairro rural e das comunidades da região. Durante meses e, mais intensamente, no mês de maio, os festeiros e toda comunidade se juntam e se esforçam para festar em honra da padroeira do bairro e para recepcionar todos os que, desde os anos 1970, migraram para os principais polos econômicos da região. A maioria retorna e o reencontro é uma emocionante manifestação de força de uma pequena comunidade que sabe manter seus laços de solidariedade.

Vai ser preciso perguntar aos festeiros deste ano – Ronaldo e Flávia da Cruz – quantos leitões foram assados, quantas balas foram produzidas, quantos bezerros foram a leilão (e é de praxe e delicadeza do doador serem por ele arrematados e recolocados no pregão, sob os gritos do leiloeiro. Eu vi passar caminhonetes com abarrotadas de pequenos porquinhos coloridos – certamente para desespero de uma alma mais sensível – na direção da cidade, e depois voltarem em marrons, cheirosos, pururucando em tabuleiros do forno da Matriz de São Bento. As leitoas são para o bingo, sobretudo, em quartos, e raramente em meia bandas. Derretem na boca – crocantes por fora e macias e suculentas por dentro, temperadas com limão capeta, as ervas que se tem no quintal e água para ajudar a entranhar as ervas, a cebola e alho.

O difícil é acompanhar o bingo, cantado com muita rapidez, alguma brincadeira e, dependendo de quem canta, muita matemática: “agora é B, mesmo número anterior, mais baixando dois, ou quatro”… ou “subindo 6”. Eu já desisti de ganhar no bingo: enquanto marquei dois ou três números, algum esperto já fez a fila inteiro e ostenta seu quarto traseiro de leitoa (a melhor parte) ou seu cone colorido de balas, ou ainda sua prenda vinda da cidade: de doces, bolachas a tanquinhos e televisões. Depois de algumas rodadas já compro minha leitoa.

À noite, quando em geral acontece o bingo, gela. E nem há o que beber: nem quentão, nem cachaça. Nada que esquente. Está proibido pela paróquia. O jeito é dar uma fugida – curta – para uns dos quatro bares que se acotovelam na rua e dividem uma farta clientela. E ouvir as conversas dos tempo em que os homens da cidade eram antes de tudo tropeiros e levavam mulas, bois e vacas, e porcos, antes de tudo porcos, para os mercados vizinhos e distantes, passando noites frias iguais, com roupas iguais às que muitos ainda usam, ou parecidas ou ressignificadas: são quase as mesmas, mas as botas têm um bico mais fino e biqueiras, o chapéus são os mesmos de abas largas, mas ganham um dobrado mais uniforme, menos fantasioso que o dos antigos; e imperam a camisa xadrez e os cintos com fivelas enormes e – como as coisas se misturam – não só com estrelas, cabeças de cavalo, revólveres: sobretudo é Nossa Senhora Aparecida quem é colocada ali para abrir e fechar o grande cinto.

Nessa hora se podem falar dessas histórias de quando se acompanhavam as estrelas rodarem no céu, das pequenas miudezas e aventuras da vida, das mulheres voluntárias – palavra que só lá ouvi: são as solteiras que têm vida livre e as casadas que pulam cerca. Só fico pensando em que adjetivo usar para as casadas – em sendo o oposto da “voluntária”, resta a que faz por “obrigação”, é a conclusão lógica. Dos homens “voluntários” pouco se comenta. Aliás, qualquer comentário – sobre homem ou mulher – é discreto, pelo menos perto de mim. Pode-se falar de tudo porque a alma está lavada e limpa.

Já ouve a celebração com os leigos da comunidade, o terço dos homens – uma das coisas mais bonitas e tocantes de que já participei -, a missa, quando o padre, o assistente do padre, o diácono vem. O último quis expulsar todos os divorciados e homossexuais da igrejinha. Boa parte da comunidade saiu da missa se perguntando se o ele já tinha ouvido falado do novo Papa Francisco, o que manda acolher.

E há as coroações, com anjinhos com asa e sem asa, quase todos com coroa, todos tremendo de frio, buscando, quando é dia, uma nesguinha de sol para se aquecer. Animados e correndo antes da coroação.  Exaustas e buscando colo e onde se sentar depois. O final da coroação termina com a longa e linda ladainha de Nossa Senhora ainda cantada em latim, diante de todos em frente à igreja, secundados por cavalos pouco dóceis, que relincham, volteiam, batem as patas, andam de ré, para os lados, deixam os cavaleiros e cavaleiras afobados e envergonhados diante de sua suposta falta de comando. E vai-se criando um fosso entre os que estão sob suas próprias pernas, que querem se afastar do bafo, do sopro quente dos cavalos e de suas pisada, de um lado, e os cavaleiros e amazonas paramentados para a procissão a cavalo que sairá a pouco enfrentando a intrepidez do cavalo, a vergonha pela falta de domínio e o olhar assustado tanto dos cavalos quanto dos que aguardam a pé ou sentados pela procissão.

Há dois anos fiz uma cirurgia que me impediu de estar junto dos que vivem o prazer da façanha e do medo de estar lá a cavalo. Desde então a procissão faz um caminho um pouco maior e vai até a fazenda, onde Nossa Senhora reencontra as oliveiras de sua terra, o lagar tão comum no Oriente Médio e na Turquia, onde viveu o final de sua vida. Lá ela encontra um altar e todos rezamos – esse é o mesmo espírito da festa – por mais um ano vivido, mal vivido, bem vivido, mal e bem vivido, mas vivido, e com toda humildade agradecemos o pouco e o muito que, ao mesmo tempo, nos foi dado por essa mãe, que tudo cria, a que tudo da vida, que consola e ampara, que vem a nosso socorro, que na nossa lógica católica, transforma até as mais difíceis provações graças, em remédio: não é à toa que recebe de nós mesmos tantos nomes – da Consolação, do Amparo, do Socorro, das Graças, dos Remédios. E se tudo cria, da Concepção, quer dizer, da Conceição, a que virou, ali no Vale do Paraíba, para onde todos vão pelo menos uma vez ao ano –  os mais velhos de ônibus, os mais novos a pé – a Aparecida.

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Igreja_Cantagalo
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Coroação
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Dois Cavaleiros
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Andor
Um anjo
Andor
Dois irmãos
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  • Posted by oliq
  • junho 8, 2016
  • Tudo
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